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Reporter. Writer. Radio and multimedia producer  | Currently in Lisbon, Portugal  | Updating...


Illustration: Helder Teixeira Peleja/WHO

Novas de mais para não engravidar

Ângela Antunes tinha 21 anos quando decidiu que estava na altura de ser mãe. Nasceu quando a mãe tinha apenas 18 anos e Ângela queria seguir-lhe o exemplo. Imaginou-se com um filho aos 19, aos 20, uma idade que, para a maior parte das mulheres portuguesas, europeias, ocidentais, é quase sinónimo de gravidez precoce e indesejada. Se os 20 anos correspondem a uma das melhores alturas para engravidar, em 2016 correspondem também à saída da adolescência, ao início da formação profissional e pessoal antes da estabilização profissional. Mas para esta esteticista de Alcaria, Fundão, estava na hora. Ângela casou-se em 2007, meses antes de completar 22 anos e não esperou mais. Seria uma questão de semanas ou meses, certamente. Dois anos depois, sem bebé e sem engravidar, não lhe passou pela cabeça que pudesse haver um problema. Na sequência de uma menstruação irregular, uma ginecologista usou pela primeira vez aquele termo. «Se já está há tanto tempo sem engravidar porque não vai a uma consulta de infertilidade?» Ângela tinha 23 anos e o sonho de ser mãe jovem e viu-se confrontada com uma palavra que sempre associou a algo que só acontece aos outros, mas que agora ameaçava travar-lhe o projeto de vida. «Ainda não me tinha caído a ficha da infertilidade», diz, agora com 30 anos. «Uma pessoa, sendo tão nova, não pensa nisso.»

Seguiu-se uma primeira consulta de fertilidade no Hospital da Covilhã, uma bateria de exames nos quais não foi detetada qualquer causa para a infertilidade – quer em Ângela quer no marido, David. Meses depois, em abril de 2010, o primeiro tratamento – uma inseminação intrauterina que falhou. Nova consulta e marcação de novo tratamento, agendado para junho. No final de julho, Ângela soube que o tratamento resultara e que estava grávida. A 30 de março de 2011, após muitas ameaças de aborto, um descolamento da placenta e uma gravidez passada na cama, Alicia nascia de cesariana. Aos 25 anos e depois de quatro anos de tentativas e tratamentos, Ângela pediu ao marido que a beliscasse. «Para eu ver se não estou a sonhar», diz agora, olhando para a pequena Alicia, uma criança de olhos claros e feitio difícil. «Ela é um bocado tortinha», diz Ângela a rir e com orgulho, como se a teimosia da filha se tivesse gerado como reação à dificuldade da mãe em engravidar. Ângela e David não voltaram a utilizar qualquer método contracetivo, esperançosos de darem um irmão a Alicia. Ainda assim, esperaram um ano antes de marcarem nova consulta de fertilidade. Em outubro de 2015, a terceira inseminação intrauterina foi cancelada porque a medicação utilizada para a estimulação ovárica não produziu os resultados desejáveis e os folículos de Ângela não se desenvolveram o suficiente. «Arrependo-me de ter esperado tanto tempo. Nunca imaginei que isto voltasse a acontecer.» Ângela tem 30 anos. O médico já a avisou de que agora a idade começa a pesar.

Ainda não me tinha caído a ficha da infertilidade. Uma pessoa, sendo tão nova, não pensa nisso.

A fertilidade de uma mulher atinge o ponto máximo entre os 20 e os 30 anos. É a chamada «idade ótima» para engravidar, que antecede a marca crítica dos 35 anos, quando a fertilidade feminina reduz drasticamente. A taxa de infertilidade em Portugal está entre os dez e os quinze por cento. Em muitos desses casos, a infertilidade pode ser explicada pelo adiamento da idade da maternidade, uma vez que esse é «o principal fator de infertilidade numa mulher», explica Daniela Sobral, especialista em medicina de reprodução. Mas a infertilidade é provocada por um conjunto de outras causas nos organismos da mulher e do homem. Problemas como a síndromedos ovários poliquísticos, a endometriose, a obstrução das trompas – no caso das mulheres – ou alterações no espermograma (devido ao consumo de álcool ou drogas ou ao sedentarismo, por exemplo) – no caso dos homens. Em dez por cento dos casos, a causa nunca chega a ser conhecida. Todas estas situações se podem verificar independentemente da idade. Mas, talvez pela atenção dada nos últimos anos à infertilidade em mulheres mais velhas, ou pelo facto de nunca terem tido consciência de que poderia haver um problema com o seu corpo, a infertilidade apanha desprevenidas algumas mulheres mais jovens. «As minhas pacientes mais novas ficam muito chocadas por não conseguirem engravidar naturalmente», diz Daniela Sobral.

Conceição Faria, psicóloga que acompanha casos de infertilidade, diz ter a «constatação empírica» de que estamos a viver «um regresso à maternidade». «O mercado de trabalho já não é tão satisfatório e as pessoas estão a voltar-se de novo para casa e os casais mais novos estão a voltar a ter filhos. A taxa de natalidade foi positiva neste ano pela primeira vez em muito tempo [o DN noticiou que em 2015 o número de bebés nascidos em Portugal aumentou pela primeira vez em cinco anos]. Isto também significa que vamos ouvir falar mais de infertilidade em casais jovens.»

Em muitos casos, estas mulheres mais jovens só se apercebem de que pode haver um problema após anos, acabando por adiar a decisão de consultar um especialista por ouvirem frases como «Ainda és tão jovem» ou «Dá tempo ao tempo», ou por desconhecerem que os ciclos irregulares desde a adolescência ou as fortes dores associadas à menstruação podem esconder problemas maiores. Para algumas destas mulheres, receber um diagnóstico de infertilidade antes dos 30 significa que terão mais tempo para tentar resolver o problema. Para outras, é uma causa de vergonha e de afastamento das pessoas próximas, que muitas vezes não compreendem por que razão um casal jovem «não se despacha» a ter filhos. «Qualquer casal que, independentemente da idade, esteja a tentar engravidar há um ano e não consiga deve procurar ajuda», diz a ginecologista Daniela Sobral.

Marta Aguiar, 30 anos, convenceu-se de que engravidaria um mês depois de deixar de tomar a pílula. Já lá vão três anos. À sua volta parece que todos engravidam e não esconde o quanto isso a incomoda. Afastou-se de quase todas as amigas. «Sou egoísta. Podia lembrar-me dos aniversários dos filhos das minhas amigas, mas não. As pessoas genuinamente boas não fazem isto.»

Ao fim de seis meses de tentativas – em que comprava dois testes de gravidez por mês –, decidiu procurar apoio médico, que se traduziu apenas na toma de Dufine, um medicamento que induz a ovulação. «No meu caso, aquilo ou água é a mesma coisa.» Reconhece que andou «um ano a queimar tempo», porque ouvia sempre: «Como ainda está longe dos 30, vamos tentar isto durante mais um mês.» Só um ano depois encontrou um especialista que recomendou que Marta e o marido, João, se submetessem a testes para detetar se havia algum problema. Os exames de João não apresentaram nenhuma alteração, mas Marta foi diagnosticada com a síndrome dos ovários poliquísticos. Antes de conhecer os resultados acreditou que «a culpa estivesse dividida». Sabe-se que em vinte ou trinta por cento dos casos a causa da infertilidade está no homem e que em vinte ou trinta e cinco por cento dos casos está na mulher, o que sugere que o problema está repartido de forma semelhante entre os dois géneros. Mas no caso de Marta não foi assim. «É difícil de aceitar. Sinto que a culpa está toda em mim.» O médico sugeriu que a operação, dispendiosa, devia ser um último recurso e foi tentando vários tratamentos, sem resultado. Em agosto de 2015, acabou por fazer a operação, comparticipada pelo seguro de saúde, depois de lhe ter sido encontrado um mioma. De certa forma, descobrir a causa foi um alívio. Marta passou a ter uma resposta pronta para aqueles que lhe diziam: «Põe as pernas para cima» ou «Faz dia sim dia não», ou ainda «Enquanto estiveres nervosa não dá». «Apetecia-me gritar: “Não me falem de ansiedade. Falem-me de folículos, de injeções.”» Depois da operação e de resolvido o problema, o médico garantiu-lhe que ela e João eram agora «um casal normal» e que a «natureza» era quem mandava a partir daquele momento. Mas, para Marta, este tem sido um processo duríssimo do ponto de vista psicológico. Teme, acima de tudo, que os pais – já com uma certa idade – não cheguem a conhecer os netos e lamenta que ninguém lhe tivesse dito que «podia ter problemas». «O problema nunca existiu. Só existiu quando eu perguntei se existia.» Marta acredita que devia haver sensibilização para as questões da infertilidade e lamenta que este continue a ser um tema que não se discute (ver caixa).

O mercado de trabalho já não é tão satisfatório e as pessoas estão a voltar-se de novo para casa e os casais mais novos estão a voltar a ter filhos. Isto também significa que vamos ouvir falar mais de infertilidade em casais jovens”, diz Conceição Faria.

Conceição Faria lamenta que «muitos médicos de família não estejam atentos às questões da infertilidade». E aconselha muitas mulheres que, à semelhança de Marta, sentem ter perdido tempo por terem ouvido que «era ainda muito cedo para se preocuparem». Mas esta psicóloga pensa que o problema vem de trás, da insuficiência na educação sexual e na educação sobre o corpo. «As mulheres estão muito pouco informadas sobre o aparelho reprodutor, os ciclos… Não saber que menstruar de 20 em 20 ou de 45 em 45 dias não é saudável vai muito além das questões da infertilidade.»

No dia em que fez 31 anos, Ana Correia estava pronta a entregar os papéis para iniciar o processo de adoção, mas, e desconhecendo que estava grávida, abortou. Ana, enfermeira, sempre desconfiou de que poderia ter dificuldades. A menstruação nunca foi regular, a reação à pílula foi adversa e foi obesa boa parte da vida (alterações de peso extremas têm impacto na fertilidade). Casou-se aos 25 anos, aos 26 começou a tentar. Dois anos depois de deixar os métodos contracetivos, procurou aconselhamento junto de uma ginecologista, que a encaminhou para uma consulta de fertilidade. O aborto espontâneo fez o processo voltar atrás. «Nunca pensei que conseguiria engravidar e agora penso sempre que posso estar grávida novamente.» Ana desvaloriza a questão de não conseguir engravidar e de não conseguir fazê-lo numa idade jovem. Talvez porque foi lendo os sinais do corpo. Mas a idade não deixa de importar. Ana sempre quis ser mãe e tem a certeza de que será mãe – biológica ou adotiva. Mas o marido gostava de ter um filho do casal e quando a mulher engravidou as negociações voltaram ao início. É como se houvesse outro relógio a fazer tiquetaque. «Fizemos um compromisso. Tentávamos até aos 30 e nessa altura metíamos os papéis. Eu não queria esperar até aos 40 anos. Agora é mais complicado falar de adoção porque engravidei.»

Sofia Marques está há mais de sete anos em consultas, a fazer exames, a tomar medicação que a deixou totalmente alterada, a ouvir conselhos que não pediu e que preferia não ter ouvido e em longas listas de espera. Sofia e o marido são defensores do Serviço Nacional de Saúde e não acreditam em pagar milhares de euros para ter um filho. A lealdade ao serviço público já se traduziu no adiamento de um tratamento devido à falta de médicos disponíveis. Sofia e o marido pertencem aos dez por cento cuja causa da infertilidade é desconhecida. Esse era o grande receio dela – nunca descobrir porquê e não poder tratar-se. O processo tem sido lento e penoso e Sofia, que nunca pensou que passassem sete anos sem que conseguisse engravidar – «hibernei um pouco, esperei por um milagre» –, deu por ela a desejar fazer 35 anos. «Para acelerar o processo.» A fertilização in vitro (FIV) que foi adiada em dezembro, quando atingiu aquela idade, terá sido feita no final de janeiro, mas Sofia diz estar farta de tratamentos e de consultas. «Às vezes penso que não é mesmo para acontecer. Vamos experimentar a FIV, mas depois acaba-se», diz, exausta e triste. Depois anima-se brevemente, mas de forma contida: «Eu digo isto, mas depois agarro-me a alguma esperança. Se tiver de desistir, há outras coisas na vida. Se não dá para ter um filho, não dá. O meu marido já tem 40 anos. Não vamos ter energia… Vivo mais os filhos dos outros… Sou tia.» Sofia tinha dois grandes sonhos – um casamento em grande e filhos. Nenhum dos dois se concretizou. Fala como alguém que encontrou uma lucidez esmagadora depois de lutar de forma incansável. Então, encolhe os ombros. «Achei eu que tinha começado na idade ótima.»

Sofia, Ana, Marta e Ângela acreditaram que tentar engravidar antes dos 30 era uma espécie de garantia de que não haveria problemas, de que a palavra «infertilidade» não lhes entraria no vocabulário. Acabaram por descobrir que infertilidade é infertilidade. Aos 35, aos 30 e aos 25.

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Illustration: Helder Teixeira Peleja/WHO

PLANEAMENTO PRÓ-FERTILIDADE?
Nas últimas décadas, as consultas de planeamento familiar e de ginecologia têm-se centrado na divulgação de medidas contracetivas como forma de evitar gravidezes indesejadas. Uma equipa de especialistas em medicina de reprodução na Dinamarca está a tentar mudar esta situação, propondo que, paralelamente à contraceção, se dedique tempo e recursos à prevenção da infertilidade e ao aconselhamento para a fertilidade. Estes médicos abriram, em 2011, com financiamento da União Europeia, uma clínica de teste da fertilidade e de aconselhamento para guiar, gratuitamente, casais aos quais não foi ainda diagnosticado qualquer problema. Nesta clínica, homens e mulheres respondem a questões e submetem-se a um conjunto de testes para avaliar o risco de fertilidade reduzida e analisarem os passos a seguir. Em alguns casos, a equipa notou que certos casais decidiram começar a tentar engravidar mais cedo do que aquilo que haviam previsto. A psicóloga especialista em infertilidade Conceição Faria pensa que este tipo de aconselhamento pode ser «um pau de dois bicos»: «Se por um lado se deve fazer uma intervenção cedo e a tempo», por outro, «encaminhar precocemente para tratamentos de infertilidade também pode provocar stress e ansiedade», o que dificulta a gravidez.

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